Outro dia tive o cuidado de fazer uma contagem, ainda que superficial, para descobrir qual a palavra mais citada em algumas revistas e jornais nos últimos meses. Descobri que a palavra mais citada, pelo menos nas edições que li, era cidadania. Nunca se falou tanto sobre o assunto. Homens reivindicam a cidadania, mulheres reivindicam cidadania, crianças reivindicam cidadania, minorias reivindicam cidadania. Até as empresas querem ter a chancela de “empresa cidadã”. Mas, das descobertas que fiz, a mais cruel de todas foi que “cidadão” está virando sinônimo de “otário”. Como se não bastassem os escabrosos escândalos diários a que estamos sendo submetidos diuturnamente, ser taxado de otário parece ser o pior de todos. O governo nos taxa de otários quando, além da altíssima carga tributária que nos cobra, em todos os âmbitos, seja municipal, estadual ou nacional, nos condena a ter que transitar por esburacadas estradas de alta periculosidade, pondo em risco nossas vidas e as de nossos familiares. O governo nos taxa de otários quando permite que bandidos da mais alta estirpe continuem a perambular livres e fagueiros em meio a uma sociedade miserável, paupérrima e desdentada, e, o que é pior: explorando-a descaradamente. O governo nos taxa de otários quando faz vista grossa ao roubo institucionalizado, à corrupção, à violência. O povo brasileiro, nós todos, somos uns otários. O exemplo mais gritante dessa afirmação são as empresas operadoras de telecomunicações, sejam elas de telefonia fixa ou de telefonia móvel: elas parecem rir de nós, já quando ligamos para seus call centers. Basta ligar e elas “vão estar nos transferindo” para infinitas “células de relacionamento com o cliente”, num interminável jogo de empurra sem fim, que não resolve nada. Se nos dirigimos para uma de suas lojas de atendimento, umas mocinhas muito bonitinhas nos atendem com seus sorrisos “imaculados”, enganando-se a si próprias, pois elas também são otárias (porque consomem serviços de telecomunicações), ao tentar vender uma realidade utópica e sem qualquer credibilidade. Estamos altamente vulneráveis a essas empresas, meus amigos! O governo, então encabeçado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e sua equipe “do mal”, comandada pelo Serjão, aquele brutamontes que se julgava gente, com o aval quase que total da imprensa, diga-se de passagem, outorgou plenos poderes a essas empresas e nos privou de todos os nossos direitos de consumidores e cidadãos. Estamos vivendo uma realidade em que as empresas de telecomunicações podem fazer o que quiserem com qualquer cidadão brasileiro! Elas, por meio de seus executivos superpoderosos e sua capacidade de extorquir com competência, cobram o que querem, expõem-nos ao ridículo, roubam-nos com o aval da lei. Isto porque quem faz a lei neste país nós conhecemos. As CPIs estão aí a nos mostrar quem são os “dignos representantes do povo”: criaturas sujas, com os rabos presos a empresários, banqueiros e multinacionais, legislando em causa própria e alimentados por polpudos mensalões.
Alguém poderá rebater estas minhas palavras, com o argumento de que temos uma Lei de Defesa do Consumidor das mais modernas do mundo, que nos garante a proteção contra os poderosos, sempre a favor do exercício da cidadania. Parece, porém, que a Lei de Defesa do Consumidor não vale para as empresas operadoras de telecomunicações. Elas têm uma espécie de “escudo protetor”, provavelmente construído com almejadas notas de dólar ou euro, que neutraliza leis, faz calar legisladores, desmoraliza a Constituição e esculacha esta nossa desmoralizada pátria brasileira. O país do futuro, de megalomaníacas hidroelétricas, faraônicos monumentos e impressionantes obras de arquitetura, sucumbem ao poder inquestionável e avassalador das operadoras de telecomunicações, numa espécie de colonialismo hi-tech: bandidos travestidos de banqueiros, empresários de alto quilate, aliam-se a multinacionais inescrupulosas para explorar os pobres brasileiros, silvícolas semi-analfabetos, gente de terceira, como se nós, em nossa humildade, não tivéssemos o direito aos meios de telecomunicações, à tecnologia, ao acesso global. Os Procons, os tão propalados Procons, não resolvem nada, quando se trata de problemas decorrentes das empresas de telecomunicações. A Anatel, que deveria ser o órgão regulador das telecomunicações do Brasil, é uma entidade simbólica, que não resolve nada, que não tem poder algum, um retrato na parede que dói, dói muito! É, como muitas das demais agências reguladoras, uma verdadeira “rainha da Inglaterra”, como se diz na gíria. Comandada por burocratas que parecem desconhecer o papel de uma agência regulatória, a Anatel se consolida como algo desnecessário, jurássico, burro, incompetente e descompromissado com as aspirações dos consumidores de serviços de telecomunicações. Mais um centro de custos sustentado pela sofrida sociedade brasileira. Na Anatel há um call center que não resolve nada. Não é culpa das atendentes. Aliás, o atendimento prestado pelo call center da Anatel é até bom. O problema é que a Agência não resolve nada. Você liga e os atendentes, obviamente que orientados por seus superiores, informa que as empresas de telecomunicações estão certas ao lesar o consumidor.
Somos lesados em todos os sentidos, de todos os jeitos, por todos os lados. As operadoras cobram o que querem de nós, empurram-nos planos de preços de qualidade duvidosa, praticam tarifas dignas de primeiro mundo num país de memória curta e patriotas de fachada e oferecem serviços de terceiro, quarto, quinto mundos. Oferecem aparelhos a preço de banana, estimulam as pessoas de bem a consumirem seus serviços de qualidade deteriorada, posam de românticas nos comerciais de televisão, mostram uma realidade diferente da que obtemos quando nos tornamos seus clientes (reféns?). Portugueses, espanhóis, italianos, americanos, israelenses, japoneses e sabe-se lá mais quem, investem na América Latina com sua voracidade sórdida, para roubar o nosso povo e dilapidar mais uma vez sua riqueza. Só que desta vez não há mais como roubar o ouro com que os portugueses e espanhóis construíram suas ricas igrejas e deram de comer ao seu povo, enriquecendo as oligarquias da Europa – ouro não há mais. A riqueza agora tem o nome de soberania e é o que esses abutres tiram de nós, com o aval dos corruptos: deputados, senadores, ministros, empresários, banqueiros, industriais, os mesmos que aparecem na televisão para defender a “cidadania”. Poderão dizer os mais críticos que esse meu discurso é pura xenofobia. Não é. Entendo a relação de parceria como uma relação entre três partes – no caso o Brasil, os investidores e os cidadãos brasileiros – em que todos lucram: o país por oferecer às pessoas o que há de melhor em serviços de qualidade; o investidor por oferecer um serviço realmente de qualidade e ser remunerado dignamente por isso e o consumidor desse serviço por obter o que há de melhor, pagando preços justos.
Há pouco tempo o governo convocou o povo para um referendo desnecessário e caro e, portanto, questionável, sobre o direito de os cidadãos terem armas de fogo em suas casas, mas não convoca um, de grande impacto social, para saber se queremos ou não os serviços de telecomunicações que nos oferecem, aos preços que nos oferecem, com a qualidade que nos oferecem. Não há interesse político nisto. O interesse é transformar cidadãos em otários. Somos otários e esta é uma constatação. Os grandes empresários e os políticos morrem de rir de tudo. Eles não pagam impostos, não têm despesas, não têm que lutar no dia-a-dia para colocar comida em suas mesas. A vida é muito fácil para esta corja.
Meu filho, lesado como eu e tantos outros pelas empresas de telecomunicações, de vez em quando fala em deixar o Brasil e procurar no exterior um lugar decente para viver, de tanto ver as falcatruas que essas e tantas outras organizações realizam por aí. Eu, que sempre tentei valorizar o patriotismo, que sempre tentei mostrar a ele um país justo e fraterno, tive que me calar pela primeira vez quando ele manifestou esta sua intenção. O Brasil, meus otários amigos, começa a ter que ser seriamente questionado pela sociedade. Do jeito que está não pode continuar.
Já que é moda falar em cidadania, gostaria que me devolvessem a cidadania. Abaixo o modelo atual das telecomunicações do Brasil. Viva o infelizmente extinto Sistema Telebrás!
